Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa Por: Ismael Encarnação
Sem reajuste nos valores das corridas há três anos e em protesto por melhores condições de trabalho, motoentregadores de Salvador e de todo país cruzam os guidões e mostram o que é um fim de semana sem delivery
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 2 de abril de 2025
Não foi por capricho e muito menos por pirraça, mas foi em busca de sobrevivência na profissão que motoentregadores de Salvador e de todo o país decidiram cruzar os braços. Ou melhor, os guidões. Nos dias 29 e 30 de março, a capital baiana foi palco de uma paralisação da categoria em busca de condições dignas de trabalho. O resultado foi um fim de semana sem delivery. O suficiente para que a clientela sentisse falta da tropa de entregadores sob duas rodas.
O foco da mobilização é o aumento da taxa mínima de entrega dos atuais R$ 6,50 para R$ 10,00 e do valor por quilômetro rodado de R$ 1,50 para R$ 2,50. Hoje, esses trabalhadores rodam quilômetros por um pagamento congelado há três anos, enquanto o custo com gasolina, peças de reposição e a própria segurança só cresce. Em meio às críticas sobre as condições oferecidas ao motoentregadores, as plataformas que dominam o segmento preferem chamar isso de “modelo de negócio”.
Nesse tal modelo, o entregador arca com tudo: gasolina, manutenção da moto, seguro contra roubos (essencial em cidades violentas como Salvador), plano de internet e, claro, a própria alimentação. Tudo isso enquanto trabalha jornadas extenuantes de até 16 horas por dia. O discurso vende autonomia, mas na prática é subordinação disfarçada.
Plataforma da exploração
“O povo precisa entender que estamos sendo explorados”, desabafa André Freire, vice-presidente da Associação dos Motoentregadores de Salvador. Ao mesmo tempo, os aplicativos impõem regras que reduzem ainda mais os ganhos, como o sistema de entrega agrupada, que faz com que o motoentregador percorra duas, três ou mais rotas pelo valor de uma. Sim, enquanto o cliente paga por cada entrega, a plataforma embolsa a diferença.
“O povo precisa entender que estamos sendo explorados”, desabafa André Freire, vice-presidente da Associação dos Motoentregadores de Salvador. Ao mesmo tempo, os aplicativos impõem regras que reduzem ainda mais os ganhos, como o sistema de entrega agrupada, que faz com que o motoentregador percorra duas, três ou mais rotas pelo valor de uma. Sim, enquanto o cliente paga por cada entrega, a plataforma embolsa a diferença.
O modelo atual de trabalho por aplicativo vende uma ideia de independência, mas opera em um esquema de controle disfarçado. O verdadeiro autônomo escolhe seus preços e horários sem medo de punições. O motoentregador, por outro lado, precisa aceitar as regras impostas por uma plataforma, que o vê apenas como mais um número no sistema.
À própria sorte
A segurança é outro ponto sensível. Motoentregadores aparecem frequentemente na lista de profissionais vulneráveis a assaltos. Fora, óbvio, os acidentes comuns no dia-dia. E tudo isso sem qualquer garantia, proteção ou respaldo por parte das empresas. Se sofrem uma colisão ou queda, muitas vezes dependem da solidariedade dos colegas e de vaquinhas online para pagar hospital e remédios.
A segurança é outro ponto sensível. Motoentregadores aparecem frequentemente na lista de profissionais vulneráveis a assaltos. Fora, óbvio, os acidentes comuns no dia-dia. E tudo isso sem qualquer garantia, proteção ou respaldo por parte das empresas. Se sofrem uma colisão ou queda, muitas vezes dependem da solidariedade dos colegas e de vaquinhas online para pagar hospital e remédios.
As manifestações realizadas em Salvador e em outras cidades do país mostram que os motoentregadores começam a enxergar o jogo em que estão inseridos. Esses trabalhadores não parecem lutar por privilégios, e sim pelo mínimo necessário: remuneração justa e respeito a quem, literalmente, carrega a cidade nas costas e na garupa.
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